Arte e Palavra


Zilda - exibido em 18/01/2010

 

 

Quanto mais admiro uma pessoa, menos quero conhecê-la intimamente. Procuro manter minha admiração guardando certa distância para não correr o risco de me decepcionar. É assim com artistas plásticos, é assim com atores, cantores... Foi assim com doutora Zilda Arns. A morte dela, mais que uma perda humana, foi um golpe certeiro na minha autoestima enquanto cidadão. Nosso país carece de heróis de verdade, como disse uma jornalista, e a figura de Zilda enquanto médica, religiosa (no sentido de ter fé, não interessaria se, ao invés de católica, ela fosse protestante ou macumbeira), enquanto carismática, enquanto a mulher elegante em todos os sentidos que era.

Perder esta mulher é passar a ter um sentimento bastante egoísta, porque Zilda parecia ser "nossa". Todo mundo queria uma Zilda para si, para salvar seu próprio mundo com medidas tão simples como o prego enferrujado no feijão para curar anemia. A impressão que se tem é que ela poderia dar conselhos e soluções para qualquer coisa. Trabalho há anos com imprensa e acompanhava o trabalho desta mulher com interesse. Sempre que alguém me perguntava quem eu admirava que não fosse do mundo das artes, logo eu lembrava dela. Quase como uma avó que todo mundo queria ter (as que tenho são maravilhosas, claro, mas digo além delas). E, de repente, um terremoto estúpido arranca a doutora e, não contente, ceifa a vida de milhares de outras pessoas. Talvez a Morte, com vergonha de ser desacreditada por levá-la sozinha, usou este subterfúgio inconsequente de carregar outro tanto pensando que isso iria nos distrair. Pobre Morte.

Dá medo perder Zilda. "E agora, José?", parafraseei o poema de Drummond quando recebi a notícia, enquanto a colher com açaí e banana se congelava no ar. Tudo bem, confesso que também soltei um palavrão, mas não vou macular este texto com uma palavra destas. O que fazer sem uma heroína viva? Quem vai ficar no lugar dela? Tiradentes? Que me perdoe o nosso barbudo mártir, mas a história dele permanece enevoada por questões não resolvidas e que talvez nunca encontremos respostas. Já Zilda, não. Nunca ouvi a mais sutil palavra, da mais maldosa criatura (e, saibam, o que não falta na imprensa é gente maldosa), contra a pessoa dela, contra a entidade dela. Dá medo porque ficamos órfãos, carentes de quem admirar em um país cuja imagem bufônica de dinheiro em meias e cuecas é a lembrança mais latente de pessoas que deveriam ganhar nossa afeição.

E dezenas de textos são publicadas diariamente sobre a doutora. E procuro ler todos. É uma unanimidade deliciosa. Muitos tentam ser os mais originais possíveis em suas palavras para se dirigir à lembrança de Zilda, mas é inevitável ser deliciosamente piegas. Perder Zilda é um alerta de que ainda temos tempo e que ainda é possível, mesmo que a miséria e a ignorância abalem nossas estruturas frágeis.

Quero acreditar que D. Zilda Arns não morreu vitimada por uma viga da igreja haitiana. Ela deve estar percorrendo a ilha de Papa Doc salvando muitas vidinhas que insistem em querer desistir.

 

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O programa Arte e Palavra, da Rádio UEL FM, homenageia Zilda Arns com o célebre poema "E agora, José", de Carlos Drummond de Andrade.

 

Arte e Palavra

Rádio Universidade de Londrina - FM 107,9. Ouça online em www.uel.br/radio

Segunda-feira: inédito, 16h30

Reprises: quinta-feira: 21h/ sábado: 9h

Produção: Ana Carolina Lucca, Kleber Arantes e Peterson Dias

Email: arteepalavra@gmail.com



Escrito por Arte e Palavra às 21h44
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Colagem da Rádio - exibido em 11/01/2010

Formação

 Marcelo Onofri cresceu ouvindo a música da família: “Meus avós maternos praticaram a música em família a vida inteira, junto com os filhos, minha mãe, tios e tias, mesmo sem uma formação oficial. Eram violões, bandolim, pandeiro [...]”. Suas primeiras lembranças musicais vêm desse conjunto: “Eram as cantorias acompanhadas de instrumentos de cordas e percussão no quintal da casa de minha avó materna.” Ele tinha quatro anos de idade quando: “consegui a permissão para tocar no piano que tínhamos em casa. Aos seis anos, fazia aulas semanais do instrumento”. Foram muitos os cursos, sugeridos e apoiados pela pessoa decisiva em sua formação musical: “Minha tia Neide, também pianista. Ela encaminhou minha aprendizagem musical até eu me tornar adulto.” A primeira professora de piano foi “Dona Zetinha”. “Depois, estudei piano com Joel Bello Soares e Antônio Bezzan. Tive aulas na Escola de Música de Brasília, Conservatório Musical Carlos Gomes, Unicamp e Escola Superior de Música de Viena. Paralelamente, estudei dança e teatro em diferentes escolas e com diversos professores. Mais tarde estudei canto com Maria Alsatti.” O que define como mais agradável e útil, de toda sua formação, “foi o ensino da música aliado ao relaxamento corporal”. Marcelo Onofri também se considera autodidata, “porque sempre toquei ‘de ouvido’, como dizem, acompanhando os cantores da família.”

http://musicosdobrasil.com.br/marcelo-onofri

 

Canto Hippie do Curruíra da Cidade

(Raquel Conti + Marcelo Onofri)

Vem, vem, vem comigo amizade

Vem ouvir o curruíra da cidade

Cantarem em coro

Que o amor e a liberdade

Era um canto hippie

Que vinha dos asfaltos

E esse é o dia que eu quero

Não fazer da vida

Aquilo que não quero

Qual é, qual é, qual é

Qual é a tua, bixo?

 

Linda Mimi

(João de Barro, o “Braguinha”)

Minha bonequinha de cristal

Moras dentro do meu coração

Como uma lembrança oriental

Guardada numa caixa de charão

Mimi! Linda Mimi!

Dos olhos que parecem pintadinhos de nanquim

Mimi! Não sei se eu vi

Num quadro de Xangai ou num vaso de Pequim

Mimi! Vendo-te aqui

E como seu tipinho no Brasil não há

Tu deves ter fugido de alguma ventarola

ou de alguma xícara de chá.

Tens um vestidinho todo azul

onde o Crisântemo sobressai.

Vendo, a gente diz de norte a sul

É o retratinho azul de Butterfly.

 

 

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Você tá bem - exibido em 28/12/2009

Reprises: 4, 7 e 9/jan/2010

 

Daniel Galera

 

VOCÊ TÁ BEM...

            Letra: Daniel Galera

            Voz: Athur de Faria e Adriana Deffenti

Se você  escuta sexual healing na voz e violão de Ben Harper, e pensa numa adolescente de dezesseis anos, você tá bem...

Se você  não consegue sentir conforto por mais do que uma hora e doze minutos em qualquer festa ou bar, onde esteja na companhia dos mesmos dez ou doze amigos de sempre e só tem vontade de ir embora, você tá bem...

Se o frio e a chuva já não te irritam como irritavam em anos anteriores e, inclusive, você pede mais e mais frio, e mais e mais chuva, mesmo sabendo que vai estar sozinho embaixo do edredom, você tá bem...

Se Belle Sebastian te parece pedante, se a palavra Jesus não causar incômodo, vociferado em canções do Tom Waits, e se aquela canção do Damien Rice, de repente, parecer uma música boa na cover da Ana Carolina, você tá bem...

Se você  ficar em silêncio por mais do que oito minutos na frente de pessoas com quem você poderia estar trocando palavras, caso preferisse, mas não prefere; você tá bem...

Se o ritual de preparar uma xícara de café for o momento mais aguardado do seu dia, e se esse momento ocorrer de manhã, de modo que você passe a tarde e a noite, antecipando a manhã seguinte, pra fazer a tal xícara de café, você tá bem...

E se as pessoas que você não conhece, mas até gostaria de conhecer, evitarem em falar com você, porque enfim, você não tem cara de quem tá  a fim de falar com alguém, ainda nesse caso, você tá bem...

Você tá  bem...

Você tá bem...

[É que, às vezes, não parece...] 

  

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Atriz

Reprise nos dias 21, 24 e 26/dez/2009.



Escrito por Arte e Palavra às 22h29
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Cadeia (Alborghetti)

Reprise nos dias 14, 17 e 19/dez/2009.



Escrito por Arte e Palavra às 22h28
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Dieta dos Afetos - exibido em 30/11/2009

Reprises: 7, 10 e 12/dez/2009.

 

 

Emagrece, engorda

      Numa mistura bem dosada de filosofia e culinária, Paixão emagrece, amor engorda reúne 30 crônicas de Sonia Hirsch com pensamentos sobre a vida, o amor, a saúde e, principalmente, sobre a influência que os alimentos têm em nossa alegria e nosso bem-estar. [...] O ingrediente principal deste livro é o estilo descontraído, em tom de conversa, como se a autora estivesse batendo papo com o leitor na cozinha enquanto prepara o jantar. Ela reflete sobre temas importantes com suavidade e bom humor e apresenta tudo o que aprendeu nas áreas de saúde e nutrição num texto saboroso como um prato bem-feito: agradável, leve e prazeroso. 

(Adaptação: Kleber Arantes)

Dieta dos afetos

No início, a paixão emagrece. Ainda que o exercício seja só desfolhar a malmequer, ou apertar o celular com força, o coração dispara tanto que qualquer coisinha vale por 10 aeróbicas. E a verdade é que paixão recém-nascida é melhor que qualquer comida. Seu apetite só pode ser saciado por coisas que não engordam: pele roçando na pele, mão esbarrando na mão, olhares que dizem tudo, beijos suspensos nos lábios. Muitas dúvidas – será que é paixão correspondida? Estará mesmo livre aquele coração?

O sono diminui, a adrenalina corre proporcionando reflexos rápidos, os olhos brilham. Dançar, cantar, dar risada, tudo o que é bom fica fácil. E o corpinho? Afina. Cada suspiro consome 100 calorias.

Até que, de repente, o desejo se realiza. Bem-me-quer, bem-me-quer! As bocas recheadas de beijos, a vida uma roda-gigante, comer para quê se o bom é amar, amar, amar? Noites movimentadas e dias à espera das noites: desnecessário também dormir. O sonho já virou vida e a vida virou estar junto. Se não me engano foi Freud quem disse: paixão são dois náufragos agarrados na mesma tábua. Magros.

Sonia Hirsch

 

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Escrito por Arte e Palavra às 22h25
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Astro

Reprise nos dias 23, 26 e 28/nov/2009 do programa exibido em 18/mar/2009.



Escrito por Arte e Palavra às 22h23
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Astro

Reprise nos dias 23, 26 e 28/nov/2009 do programa exibido em 18/mar/2009.



Escrito por Arte e Palavra às 22h22
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Nouvelle Vague de Jorge

Reprise no dias 16, 19 e 21/nov/2009 do programa exibido em 06/out/2008.



Escrito por Arte e Palavra às 22h20
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Midnight Cinderella

Reprise nos dias 9, 12 e 14/nov/2009 do programa exibido em 02/mar/2009.



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Eça de Queiroz (Superbacana) - exibido em 26/10/2009

Reprisado de 29/10 a 07/11/2009

 

Descontente com o que via de errado no Brasil do século 19, Eça de Queiroz escreveu, em 1871:

O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.
Os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte, o país está perdido!

 

Mas nem tudo está perdido no País das Olimpíadas de 2016, a primeira na América do Sul. O Brasil é cor e contornos retorcidos como

as canções de Caetano Veloso. Incerto e saudosista como o Hino cantado por Vanusa. O Brasil é o Rio de Janeiro e de todos os outros meses do ano.

 

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Virtualidades - exibido em 05/10/2009

Reprisado de 12 a 24/out/2009

 

Arte e Palavra faz uma reflexão sobre as relações virtuais e as virtualidades em dois textos: "Como vai você?", do catarinense John River, e "Não", de Peterson Dias.


Como vai você? (John River)

Curiosidade impertinente, mas desinteressada
Você finge querer saber do meu dia
Da janela de um mundo, no qual não vejo nada

Dou-te um sorriso amarelo
Eu tento parecer autêntico:
-Como vai você?
-Tudo bem?
Assim, sigo sempre em contradição
Conversando por aparências
Não somos ações

Digo olá, para a coisa
Digo bom dia, para as formas
Digo “opa”, aos indigentes

Grande parte do dia
Passo a interrogar
Buscando responder
Aquilo que me olha


Não - Peterson Dias

Não é saudade. Não, você não sente minha falta. Não, não vamos combinar nada, nenhuma cerveja, nem um café, nem uma passadinha lá em casa.
Não, a gente não precisa se ver. Não, não vou mandar lembranças para os meus pais, nem para o resto da minha família.
Você não se interessa por mim, não me interesso por você. Nossos interesses não passam de frases soltas no orkut e no msn. Não acredito nas frases de efeito em seu perfil. Não, não  acredito que você tenha lido os livros que as originaram. Não me interesso por suas viagens, não me interesso por suas emoções pequenas no buddypoke, não me interesso por seu blog, pelo seu twitter, nem pelos seus quizes, nem pelas suas atualizações, nem pelo seu aniversário anunciado, nem pelas impressões que tem das festas. Definitivamente não me interesso, você não se interessa.
Não, você não se importa, você não é meu amigo, não quer saber se está "tudo bem" ou "tudo ok". Nem eu. Nem ninguém. Não.

 


 

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Escrito por Arte e Palavra às 21h41
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"Setembro" - exibido em 14/09/2009

 

Setembro é flor e é verde porque misturado com todas as outras cores, é final de frio, é convulsivo, é aniversário, é virginal e perfumado como o jacinto...

 

Onze de Setembro...

E de repente, na imensidão do céu aberto,

Mas encoberto por tantas coisas ignotas,

Pássaros que voavam alteraram suas rotas,

Vieram se chocar com as torres de concreto.

[...]
(Agenor Martinho Correa - http://www.overmundo.com.br/banco/onze-de-setembropoesia)

 

Poema de Setembro

a luz de setembro
pendurada em cada lábio teu
inventa o crepúsculo
é madrugada
(setembro é sempre madrugada)
e as aves ainda não aprenderam
a cantar
ainda não estão prontas
para ser aquilo que são
setembro inventa os contornos
dos amantes
que se amam em silêncio
(o amor é quando as palavras não são precisas)
é setembro
e a luz é o sorriso
e a chuva é o choro
de Deus

(Rui Miguel Brás - http://estarcalado.blogspot.com/2005/09/poema-de-setembro.html)

 

Manhãs de Setembro

Manhãs de Setembro,

aragem fresca

construindo sonhos,

teias de gotas

enfeitando os matos,

perfume verde

a seguir meus passos,

lírios roxos

ponteando as margens

do fio de água

que escorre manso.

E tu E eu!

E a erva tombada

pelos corpos,

os lírios violados

na paixão.

E o céu!

Esse céu azul

sem limite.

O nosso limite.

A nossa eternidade!

(Helena Guimarães - http://www.helenaguimaraes.interdinamica.pt/central/hg/x12yv97w.htm)

 

 

 

 


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Escrito por Arte e Palavra às 13h16
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"A pegada de quarenta anos" - exibido em 24/08/2009

E o homem pisou na Lua. E não achou são Jorge e não achou o dragão. Está lá a marquinha. Faz quarenta anos que um pouquinho do mistério da menina roliça e branca se perdeu no Espaço. Mas não há lugar melhor que o lar e o homem voltou para casa. E trouxe panela de teflon e trouxe forno de micro-ondas e trouxe tecido autolimpante. Nem tudo está perdido e ninguém morreu à toa no frio da Guerra. Foi preciso pisar a pobre Lua para que se derrubasse o Muro, sabe aquele muro?
E de lá para cá tanta coisa aconteceu! Toda vez que gira o meu micro-ondas gira ali um pouquinho da Lua. Toda vez que eu frito um ovo, frito ali um pouquinho da Lua. Quantos dias eles ficaram sem tomar banho para chegar até lá? Será que vale a pena juntar tanta sujeirinha no umbigo só para pisar a nossa menina?
A Lua nem é de queijo, nem é de isopor. Aliás, o queijo está mais caro do que ir para a Lua. Quantas delas já passaram pelas nossas vidas, crescendo, enchendo, minguando e desaparecendo? Há quarenta anos atrás ela ficou menos virgem, menos intacta, menos sozinha. Tem uma bandeirinha lá, deflorando-a há quarenta anos.
Quantos não morreram por causa da contagem regressiva, por causa do refratário dos capacetes, por causa do seu defloramento. Uma humanidade inteira morreu naquela noite fria em que eles pisaram lá. E não tinha são Jorge e não tinha dragão e não tinha queijo e não tinha marciano.
Tinha Colombo. Colombo estava lá porque foi por causa dele que chegamos a Lua. Ele atravessou os mares, ciberespaços de sua época, e foi dar no Mundo Novo. Os meninos do foguete atravessaram o ciberespaço, um mar de nada, para dar na massa branca polar da Lua. Neil pensou em Colombo e Colombo pensou em Neil. Neil do Braço Forte. Ambos se fitaram longamente mas ninguém disse nada ao outro, só pensaram "este vai ser nosso segredinho". E tinha toda aquela gente que morreu queimada por dizer que a Terra não era quadrada, nem feita de geleia de mocotó, nem era sustentada por elefantes e tartarugas.
E a Lua vai girando e girando no meu céu como uma vitrola amarelinha encantada. Vai dançando Moon River até alcançar o zênite pastoso de nutella para chegar ao mar de Colombo. Toda vez que isso acontece, ele sorri e fica pensando no ovo que jamais deveria ter deixado de comer por ter cozinhado tão bem para evitar a salmonela.
E a frigideira? A frigideira era de teflon.

(Texto: Peterson Dias)




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Escrito por Arte e Palavra às 21h37
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"O artista" - Reexibido em 03/09/2009

Veja a postagem original aqui.



Escrito por Arte e Palavra às 11h49
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