"A ditatura da utilidade" (Paulo Leminski) - exibido em 23/06/2008
O paranaense Paulo Leminski é mais conhecido pela poesia que pela prosa. Em seu livro de ensaios Anseios Crípticos, o curitibano faz críticas lancinantes à ditadura da utilidade, acusando a sociedade capitalista de buscar 'pra quês' e 'por quês' para tudo, de preferência com objetivos de lucro. O posicionamento político do escritor, morto em 1989, se mantém contemporâneo e reflexivo, um grito de amor à arte que não tem contabilista.
Para o Arte e Palavra desta semana homenageia Leminski e complementa a reflexão sobre a in-utilidade com o poema concreto do contemporâneo Ubirajara Moreira, que critica a repressão do não em "O ovo".
O vôo
do ovo- na
da mãotesta
do povo do
testa
de
ferro
do
NÃO!
- Ubirajara Moreira
A ditadura da utilidade
A burguesia criou um universo onde todo gesto tem que ser útil. Tudo tem que ter um para quê, desde que os mercadores, com a Revolução Mercantil, Francesa e Industrial, substituíram no poder aquela nobreza cultivadora de inúteis heráldicas, pompas não rentábeis e ostentosas cerimônias intransitivas. Parecia coisa de índio. Ou de negro. O pragmatismo de empresários, vendedores e compradores, mete preço em cima de tudo. Porque tudo tem que dar lucro. Há trezentos anos, pelo menos, a ditadura da utilidade é unha e carne com o lucrocentrismo de toda essa nossa civilização. E o princípio da utilidade corrompe todos os setores da vida, nos fazendo crer que a própria vida tem que dar lucro. Vida é o dom dos deuses, para ser saboreada intensamente até que a Bomba de Nêutrons ou o vazamento da usina nuclear nos separe deste pedaço de carne pulsante, único bem de que temos certeza. (Paulo Leminski in ANSEIOS CRIPTICOS, Ed. Criar, Curitiba, PR, 1986, p. 58-60)
Veja Leminski falando sobre o Inutensílio em vídeo:
Ouça "A ditadura da utilidade":
Arte e Palavra
Rádio Universidade de Londrina - FM 107,9
Segunda-feira: inédito no Programa Trem das Onze (a partir das 11h).