Arte e Palavra


Pobre Farrah - exibido em 06/07/2009

Coitada da Farrah Fawcett, teve o azar de morrer no mesmo dia que o Michael.
A Farrah, sabe? Aquela das Panteras? Pois é, acho que você nem sabe, mas ela morreu. No mesmo dia. Sabe-se lá na mesma hora, mas no mesmo país. Ela passava dos sessenta, ele tinha cinquenta.
O mundo inteiro dirigiu suas câmeras para Neverland, o mundo inteiro correu a passos de Moonwalker para Los Angeles. O mundo inteiro comprou os discos de Michael. Mas e de Farrah, o que compraram? Farrah não estava mais na moda, coitada. Não estava fazendo filmes, não estava lançando discos, não estava envolvida em escândalos, não mudou de cor, não mudou de nariz. Bom, de nariz acho que ela já deve ter mudado. Mas ninguém jogou seus holofotes para ela. Farrah ficou no ostracismo, pobrezinha.
Era a oportunidade de ouro para o mundo relembrar quem ela foi e o que fez, o quanto contribuiu ou quanto complicou a história do cinema, da tv, da beleza. Quem, do sexo feminino e com mais de 30 e alguns anos já não cortou o cabelo à moda de Farrah?
Farrah foi entusiasta da aeróbica assim como sua colega Jane Fonda. E usou maiô asa delta. E usou polainas. E tinha aqueles olhos lindos de conta que já não se fabricam mais. Ou não tem mais graça.
É, sim. Farrah era uma das Panteras. Uma das Charlie's Angels. Sempre linda, sempre correndo, sempre com cabelo feito, sempre maquiada, nunca suada, nunca brilhando. Mas o tempo passou e ele não perdoa. Ninguém. Nem Michael, nem Farrah.
Ninguém falou que iria comprar o DVD das Panteras, não vi ninguém deixando velas e pelúcias de mau gosto em frente a casa dela, nem na estrela dela (ela tem estrela na calçada da fama?).
Ninguém cancelou shows de Farrah, ninguém pagou as dívidas de Farrah. Ninguém imitou Farrah no presídio, ninguém pagou mico por Farrah. Só por Michael. De repente, quanta gente passou a amar Michael! Devia ser um amor latente, daqueles que só aparecem quando a gente perde algo querido. Tipo aquela blusa que não usamos há anos mas, quando a encontramos carcomida por traças, como gostaríamos de tê-la usado!
Farrah não inventou uma dança, Farrah não veio de uma família pobre, Farrah não apanhava do pai, Farrah só foi uma Pantera. E que Pantera!
Vai, Farrah, vai. E ensina o Michael como é ser moonwalker de verdade, como uma pantera.

Texto: Peterson Dias

Ficha técnica: "Black or White" (Michael Jackson) - Caetano Veloso; "You (Toi)" - Farrah Fawcett e Serge Gainsbourg; "Charlie's Angels Theme" - Henry Mancini; locução: Peterson Dias.

 


 


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Segunda-feira: inédito, 16h30

Reprises: terça-feira no programa Trem das Onze (a partir das 11h)/ quinta-feira: 21h/ sábado: 9h

Produção: Ana Carolina Lucca, Kleber Arantes e Peterson Dias

Email: arteepalavra@gmail.com



Escrito por Arte e Palavra às 13h31
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Sereia - exibido em 29/06/2009

 

Sereia é um ser mitológico, parte mulher e parte peixe. Filhas do rio Achelous e da musa Terpsícore. Habitavam os rochedos entre a ilha de Capri e a costa da Itália. Eram tão lindas e cantavam com tanta doçura que atraíam os tripulantes dos navios que passavam por ali para os navios colidirem com os rochedos e afundarem. Odisseu, personagem da Odisséia de Homero, conseguiu salvar-se porque colocou cera nos ouvidos dos seus marinheiros e amarrou-se ao mastro de seu navio, para poder ouvi-las sem poder aproximar-se. As Sereias representam na cultura contemporânea o sexo e a sensualidade.

(Adaptação: Kleber Arantes)

A Sereia Escamada – Gabriel García Márquez

A sereia era uma criatura que tinha de mulher o menos útil e de peixe o menos aproveitável. Em vista do que, não houve outra alternativa senão a de deixá-la aos poetas, as únicas pessoas capazes de tirar algum partido de um ser que não oferecia quaisquer perspectivas, nem como esposa amantíssima, nem como complemento do almoço.

Uma sereia, pelo seu lado humano e despojada da folhagem retórica, não seria mais que uma boa senhora numa cadeira de rodas. Seria vista indo para o parque, nas tardes de dezembro, para tomar sol, depois de uma longa temporada de férias no viveiro do pátio. Olharia com tristeza as crianças em suas bicicletas ou em seus patins e, apenas com um ressentido sentimento de superioridade, as damas que, num banco estivessem remendando as meias. A sereia seria uma solteirona inválida, a quem o estado deveria compensar, com uma pensão mensal, a desgraça de ser mulher até onde não vale a pena sê-lo e de ser peixe onde sê-lo começa a ser um sério inconveniente. Aos 16 anos, seria vista passar em sua cadeira de rodas, coberta da cintura para baixo por um edredom quadriculado, e se diria: “Que pena ser inválida com este rosto!” E finalmente, castigada pela sua feminilidade cerebral, a veríamos morrer de desespero e de impotência em frente a uma sapataria.

Se se a vê pelo lado contrário, como peixe, a sereia mostra-se completamente inoperante, pois seria suficientemente inteligente para não morder o anzol e suficientemente incompetente para sentar-se e cantar aos navegantes, sem ter, na realidade, nada de efetivo para lhes oferecer.

Com semelhante inutilidade, o mais prudente que poderiam fazê-lo foi o que fizeram: desaparecer. [...] O mais, os poetas o farão.

 



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Escrito por Arte e Palavra às 15h19
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"Ocupação Maravilhosa" - reprisado em 22/06/2009

      O texto [...] é uma seleção variada, insólita, de notas, de fantasias e de improvisações. [...] uma visão característica de Cortázar, que aqui escolhe o caminho do fantástico e a arma do humor melancólico, irônico ou violento, cheio de uma curiosa poesia [onde] se desdobra num estilo carregado de imagens intensas e de achados verbais e psicológicos [...] para denunciar um mundo onde o sentido do humano se perdeu. (Glória Rdriguez)

Programa de hoje: Ocupações maravilhosas

      Que ocupação maravilhosa é cortar a pata de uma aranha, metê-la num envelope, escrever Senhor Ministro das Relações Exteriores, acrescentar o endereço, descer a escada aos pulos, botar a carta no Correio da esquina.

      Que ocupação maravilhosa é ir andando pelo Boulevard Arago contando árvores, e a cada cinco castanheiros parar um momento num pé só e esperar que alguém olhe, e então soltar um grito seco e breve, e girar como um pião, os braços abertos, igual à ave cakuy que se vê nas árvores do Norte da Argentina.

      Que ocupação maravilhosa é entrar num café e pedir açúcar, açúcar outra vez, três ou quatro vezes açúcar, e ir formando um monte no meio da mesa, enquanto cresce a fúria nos balcões e debaixo dos aventais brancos, e exatamente no meio do monte de açúcar cuspir suavemente e espiar a descida da pequena geleira de saliva, escutar o barulho de pedras quebrando que o acompanha e que nasce nas gargantas contraídas de cinco fregueses e do patrão, homem honesto em certas horas.

      Que ocupação maravilhosa é tomar o ônibus, descer defronte do Magistério, abrir caminho a golpes de envelopes com selos, deixar para trás o último secretário entrar, firme e sério, na grande sala de despacho toda de espelhos, no momento exato em que um contínuo vestido de azul entrega uma carta ao Ministro, e vê-lo abrir o envelope com um cortador de papel de origem histórica, enfiar dois dedos delicados e retirar a pata da aranha e ficar olhando, e então imitar o zumbido de uma mosca e ver como o Ministro empalidece, quer tirar a pata mas não consegue, está agarrado pela pata, e dar-lhe as costas e sair assobiando, anunciar nos corredores a renúncia do Ministro e saber que, no dia seguinte, entrarão as tropas inimigas e tudo irá para o inferno e será uma quinta-feira de um mês ímpar de um ano bissexto. (Julio Cortázar)




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Escrito por Arte e Palavra às 10h07
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"Maquinomem" - exibido em 01/06/2009

O maquinomem tem sentimentos. O maquinomem é um cara família. O maquinomem produz mas também ama. O maquinomem consome mas também cria. Quem tem a razão? (Peterson Dias)

A poeta paranaense Helena Kolody

    Maquinomem

    O homem esposou a máquina
    e gerou um híbrido estranho:
    um cronômetro no peito
    e um dínamo no crânio.
    As hemácias de seu sangue
    são redondos algarismos.

    Crescem cactos estatísticos
    em seus abstratos jardins.

    Exato planejamento,
    a vida do maquinomem.
    Trepidam as engrenagens
    no esforço das realizações.

    Em seu íntimo ignorado,
    há uma estranha prisioneira,
    cujos gritos estremecem
    a metálica estrutura;
    há reflexos flamejantes
    de uma luz imponderável
    que perturbam a frieza
    do blindado maquinomem.

    Helena Kolody

    Do livro: "Era espacial e trilha sonora", Ed. autora, 1966, PR

     

    O filósofo francês Luc Ferry

     

    "Para dizer mais brutalmente as coisas: o modelo do consumismo puro é o da addiction, ou vício.

    Como o drogado que deve continuamente aumentar as doses e encurtar os períodos entre as aplicações,

    o consumidor ideal seria aquele que compra sempre mais e cada vez mais frequentemente. Mas há um ponto crucial:

    para se ter vontade de co nsumir, é preciso estar em estado de insatisfação, situar-se dentro de uma lógica do desejo

    que prioritariamente se caracteriza pela carência. E para que o indivíduo mergulhe neste estado, é prciso, tanto quanto

    possível, "livrá-lo" dos valores espirituais e morais - daquilo que Freud chamava "sublimação" - que lhe permitem ter um

    mundo interior rico e estável o bastante para bastar-se a si mesmo e, dada a própria riqueza e estabilidade, não sofrer

    da permanente necessidade de comprar (...)."

     

    LUC FERRY - Famílias, amo vocês. Ed. Objetiva, 2008, p. 62

     


     

     


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Escrito por Arte e Palavra às 12h40
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"Amor de Castro Alves" - exibido em 11/05/2009

 

A poesia de Castro Alves tem duas vertentes distintas. Uma lírico-amorosa, plena de sensualidade, e outra social e humanitária, combatendo o tráfico negreiro e defendendo a abolição. Ambas com intenso vigor poético e inspirada lírica.

Batem! Que vejo! Ei-la afinal comigo! Foram-se as trevas... Fabricou-se a luz... Nini! pequei... dá-me exemplar castigo!Sejam teus braços... do martírio a cruz!

[...] Sua poesia tinha caráter “condoreiro”, pois, influenciado pelo modelo de Victor Hugo, Castro Alves chegava freqüentemente ao exagero da expressão, de forma quase gongórica.

Se o índio, o negro africano, e mesmo o perito hispano têm sofrido escravidão: Ah! não pode ser escravo quem nasceu no solo bravo da brasília região!

Castro Alves era alto, forte, esbelto, de tez levemente morena, ampla testa, olhos negros, nariz direito, lábios sensuais sombreados por um buço arrogante, queixo dominador e, sobretudo, na cabeça poderosa, a coma negra, uma basta e larga cabeleira, cuja sedução ele bem conhecia. Antes de sair de casa, olhava para o espelho e dizia, vaidoso: “Pais de família, temei: Dom Juan vai sair...”.

Na volúpia das noites andaluzas, o sangue ardente em minhas veias rola... Sou Dom Juan!... Donzelas amorosas, vós conheceis-me os trenos na viola! Sobre o leito do amor teu seio brilha... Eu morro, se desfaço-te a mantilha... Tu és – Júlia, a Espanhola!...

(Os três amores)

Eram versos candentes, poesia inspirada, rutilante, que os moços ouviam embevecidos, em êxtase. Castro Alves não foi só o mais ardente abolicionista, mas também um dos mais corajosos.

[...] Auriverde pendão de minha terra, Que a brisa do Brasil beija e balança, Estandarte que a luz do sol encerra, E as promessas divinas da esperança... Tu, que da liberdade após a guerra, Foste hasteado dos heróis na lança, Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha!...

(O navio negreiro)

“Castro Alves não foi um homem: foi uma convulsão da natureza” (Agripino Grieco)

 

 


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Escrito por Arte e Palavra às 10h56
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Dia dos Namorados(?) - exibido em 08/06/2009

Arte e Palavra homenageia os amantes com belo texto de Jeová Santana, sugestão enviada pela ouvinte Cláudia Perozim, leitora assídua do site literário Cronópios. "Fica comigo esta noite" (Nelson Gonçalves), "Sway" (em versão das Puppini Sisters), "Por isso eu corro demais" (Roberto Carlos e Erasmo Carlos) e "Lovely Head" (Goldfrapp) acompanham a bela e meteórica história de amor que se passa num cruzamento. A locução é de Peterson Dias.

"O beijo" - Pablo Picasso

SP, 2018

Me aproximei devagar e fui recebido por aquele sorriso que não me sai da memória. Fiz sinal de que estava tudo bem. Ela moveu um pouco os lábios, sobre os quais imaginei os beijos mais doidos. Catei umas palavras. Segurei sua mão e pensei no bem enorme que me faria um carinho nessa minha crosta. Tinha me aproximado o mais que pude de sua orelha. Afastei seus cabelos tão bonitos pra dizer: segura a onda, respira fundo, fica comigo esta noite. Você é a primeira mulher que me sorri desse jeito nos dez anos em que picoto os restos dos meus sonhos nessa cidade maluca. Tirei uns vidros moídos dentre suas pernas. Uns cd´s destroçados no piso. E o perfume, meu pai! Aos poucos, ela foi se esvaindo. Já nada mais podia ser feito. Por ter sido num cruzamento, rapidinho se formara uma fila de uns doze milhões. Os sons. As fúrias.




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Escrito por Arte e Palavra às 22h43
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"Guardar" (Antônio Cícero) - exibido em 18/05/2009

Arte e Palavra leva a poesia do também compositor Antônio Cícero ao público em "Guardar", uma bela reflexão sobre a memória, expressão e liberdade. As músicas que acompanham a locução é instrumental e composta apenas por mulheres. "Telephone Waltz", da violonista norte-americana Nancy Wilson, e "Hili", do quarteto islandês Kurr.

GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

 


 


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Escrito por Arte e Palavra às 19h16
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"La Bande" - exibido em 27/04/2009

Joca Reiners Terron (Cuiabá, 9 de fevereiro de 1968 – radicado em São Paulo desde 1995) – poeta, prosador, artista gráfico e editor,  é um pele vermelha perdido nas planícies da cidade, desorientado por causa da poluição que oculta os astros do céu. De seu fervor de xamã alguns livros surgiram como o romance Não há nada lá (Ciência do Acidente) e a novela Hotell Hell (Livros do Mal). Edita o blog Hotell Hell.

Postes são árvores sem vida

Hidrantes, bebedouros para o fogo

Semáforos têm três olhos,

Mas só abrem um de cada vez

Não existem placas de trânsito em braile

Avenidas são serpentes saracoteando luzes

É, tudo é o que parece ser

E é...

A música que acompanha (Cha cha cha du loup – Serge Gainsbourg) é interpretada por Bande Ciné, de Recife, que é um sexteto que se propõe a fazer releituras de clássicos da música pop francesa – enfatizando a década de 1960.

(Adaptação: Kleber Arantes)

[...]

Tu es encore à l’âge 
Où les filles ont peur de nous 
Tu es bien trop sage 
Pour venir sur mes genoux 
Mais je t’aime bien, 
Ne crains rien 
Approche-toi 
Je ne te mangerai pas 
Ne sois pas cruelle 
Viens dans mes bras ma jolie 
Viens plus près ma belle 
Et ne tremble pas ainsi 
Je ne te ferai 
Aucun mal 
Je ne suis pas 
Le grand méchant loup aux abois 
 
Hou ! hou ! hou ! hou ! 
Cha-cha-cha du loup 
Hou ! hou ! hou ! hou ! 
Cha-cha-cha du loup


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Escrito por Arte e Palavra às 20h24
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"Por que elas gostam dos cafajestes" - exibido em 04/05/2009

Arte e Palavra pergunta e a (bela) poeta, performer e dançarina Karla Jacobina (foto), em seu texto e locução, responde.

Porque o impossível funciona mais do que ostra, amendoim e catuaba batidos no liquidificador. "Você é demais, por isso é impossível ficarmos juntos" é a frase que os cafajestes mais gostam de dizer e a que as mulheres mais gostam de ouvir - até à vírgula.
As mulheres não sabem o que querem, mas têm uma vaga lembrança do que não querem, depende de qual moderador de apetite tomaram. As mulheres só não querem aquilo que elas não conhecem, mas assim que são apresentados, insantaneamente, remanejam seus quereres.
Antes das mulheres serem mulheres, elas são gente e gente além dormir deitado, deseja Deus e o mundo. Ainda que Deus e o mundo sejam coisas excludentes, gente como a gente, quer Deus e o mundo juntos, duma vez, como servem nas bandejas do Mc Donalds.
Na verdade, esse desejo de ter Deus e o mundo de bandeja, faz a gente não admitir pickles como resposta. Olha bem, eu acho que você não está entendo, estou comendo Deus e mandando ver no mundo e você tem a audácia de me dizer: pickles?
Por mais que honremos as calças que vestimos, todo mundo brocha quando ouve "não". Mas por que? Por que não. Mas por que não? Porque não. Mas por que "porque não" se a pergunta que lhe fiz foi justamente essa "por que não"? E assim, o "não" se transforma numa grande e deliciosa punheta. Ouvir "não" é brochante, mas tentar compreender seus porques é estimulante.
Além da trepada de ouro, os cafajestes dão para as mulheres outra coisa que elas adoram: uma incoerência afrodisíaca. Já ouviu aquela frase: ninguém chuta cachorro morto? Pois bem, depois de dias inteiros sem sair do quarto, chegam na segunda-feira que bem entendem e dizem: "Você é demais, por isso é impossível ficarmos juntos". Agora me conta, quem vocês conhecem que já foi morto pelo excesso? Excesso não mata ninguém, nem é razão pra morrer infeliz. Pelo contrário, excesso é o requisito principal para que transbordamentos aconteçam.
Concordo: mulheres querem ser amadas, mimadas, desejadas, mas não há mulher que queira dormir com o gênio da lâmpada! Onde mora o desafio em fazer pedidos e eles serem atendidos num passe de mágica?
Gostamos dos cafajestes, porque com eles lidamos de igual pra igual: de mulher para homem. Mas é claro, há razões bem mais atraentes para gostarmos deles do que essa.
"O homem é um diabo, não há mulher que negue, mas toda mulher deseja que o diabo lhe carregue." - Karla Jacobina em Elas por Ela e também em KarlaJacobina.blogspot.com.

 


 


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"Joaquim" - exibido em 20/04/2009

 

De Joaquim tiraram tudo


Tiraram as luvas e a máscara


O jaleco e o avental


Tiraram-lhe a broca e o cimento


O amálgama e o reagente.


De Joaquim não sobrou mais nada


Nem aquela pistola com luz na ponta


Um ET querendo voltar para casa


De onde, na verdade, nunca saiu.


De Joaquim tiraram a esperança


As amantes e as abluções matinais


A vida


Para ser um herói


Não podia ser mais ninguém:


Nem Maria Quitéria, nem Ana Néri


Nem Princesa Isabel.


Tinha que ser “o” homem: Joaquim José


O homem nacional.

 

(Peterson Dias)

 



 


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Escrito por Arte e Palavra às 22h36
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"Tang de laranja" - exibido em 13/04/2009

Tomei um tang de laranja e fui fazer revolução. 
Pedi a benção pra mamãe, uns trocados pro papai e ganhei a rua, placa na mão. 
Andei com passos de propaganda de jeans e gritei "o povo unido jamais será vencido" em russo, para me fazer entender melhor. Queimei igrejas, chutei a [bunda da] polícia, lutei a favor do vegetarianismo e pela libertação da mulher. Me prenderam. Vendaram os olhos, me fuzilaram, me esquartejaram. Minha cabeça é erguida pelo JK cinza do Planalto Central.

(Peterson Dias)




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Escrito por Arte e Palavra às 10h41
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"Andando por aí" - exibido em 30/03/2009

UOL

 

Neste programete o som é de Bernardo Pellegrini (se eu chorar eu morro),

e o texto que segue é de Diego sobre Diego, andando por aí. Os dois de Londrina... [por Kleber Arantes]

About me 
Eu nem imagino quem realmente sou!  
Talvez um monstro inteligente e sensível, que consegue 
escrever sobre sentimentos. O uivo que todos querem escutar...  
Um sonho de que todos querem acordar 
Sem se queixar de dor nos olhos, após despertar 
Mais um ser humano vivendo sob seu teto de vidro...  
Caminhando talvez feliz.  

Andando Por Aí - Diego Navarro


Claro, que depois de tudo estamos aqui.  
Enlouquecidos com os dias banais.  
Bem... Apenas lemos, comemos, bebemos muito e gozamos. 
Juntando os dias, eles acabam sendo sempre iguais. 
Mesmo assim, eu amo todos esses dias.

II 
Correndo porta afora 
Deixando os livros marcados nas paginas 
E sempre esquecendo a TV ligada 
No mesmo canal pra não questionar a dúvida 
Aprendi a andar com poemas na cabeça 
E assim... Passa o ano

III 
Deslizando por lugares secretos 
Tentando transformar sentimentos em fúria 
Tínhamos tudo que era preciso 
Hoje pagamos pra atravessar fronteiras 
Sempre estamos tentando contar uma nova estória 
Claro, no mesmo velho lugar de sempre.

IV 
Agora as janelas são cheias de arame farpado 
Sonho com o fel 
Sigo atrapalhado até o outro lado do dia 
Dou Beijos de boa noite...  
E passo à língua no céu 
Sentindo o gosto dos pássaros.




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Escrito por Arte e Palavra às 14h59
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"Qual o sentido da comunicação?" - exibido em 23/03/2009

UOL

"Isso não é um cachimbo" (1929) - René Magritte

Arte e Palavra adora perguntar, questionar, duvidar e - como sempre e mais uma vez - não responder.

Desta vez, a inspiração é a comunicação, ou a falta dela. Peterson Dias se inspirou na chinesa que, desesperada por perder um voo,

se joga no chão do aeroporto numa sucessão de guinchos e imprecações ininteligíveis para quem não sabe chinês (e talvez até para quem sabe).

Com Babel (2006), Alejandro González leva ao cinema, em um filme brilhante, como a (falta de) comunicação verbal pode causar angústia e, por vezes, ser fatal.

Má comunicação é ruído, é barulho, aproxima a fragilidade humana dos grasnidos primatas a que tanto tememos.

Sem comunicação, afinal, não passamos criaturas sem destino certo nessa viagem que se chama vida em sociedade.

Nem as árvores somos nozes, nem o jardineiro é Jesus.

 

 

 

 


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Escrito por Arte e Palavra às 16h10
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"Caos" - exibido em 16/03/2009

UOL

 

Arte e Palavra também vai ao final dos tempos: caos, apocalipse, juízo final??!

O texto de Robert Charroux dá o recado...

História desconhecida dos homens

“Quando a terra tremia, ou quando grassava a fome ou a peste, quando as chuvas diluvianas inundavam os vales, quando a seca destruía as colheitas, os homens obscurantistas experimentavam os únicos remédios possíveis: a encantação mágica, a oração a Deus.”

(por Kleber Arantes)

 


 

 



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Reprises: terça-feira no programa Trem das Onze (a partir das 11h)/ quinta-feira: 21h/ sábado: 9h

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Email: arteepalavra@gmail.com



Escrito por Arte e Palavra às 23h44
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"Tantos desejos" - exibido em 09/03/2009

UOL

Arte e Palavra aproveita a Semana da Mulher para não só homenageá-la mas também aos 10 anos do lançamento

de São Paulo Confessions, do produtor musical e DJ ioguslavo Suba, que viveu na capital paulista até sua morte, em 1999,

meses depois de lançar o álbum solo, um dos mais elogiados da cena eletrônica brasileira e que destacou vozes como as

de Bebel Gilberto, Katia B. e Cibelle Cavalli - esta canta a música-tema deste programa, Tantos Desejos.

Para o texto, um sem-título da escritora francesa Anaïs Nin presta honras a elas, as mulheres, além de tudo,

de tantos desejos.

O ímpeto de crescer e viver intensamente, foi tão forte em mim, que não consegui resistir a ele. Enfrentei meus sentimentos. A vida não é racional! É louca e cheia de mágoa.

.

Mas não quero viver comigo mesma.

,

Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal. Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos, beber um Benedictine ardente.

Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas.

Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela. Eu estava esperando.

.

Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro. Todo o resto foi uma preparação.

.

A verdade é que sou inconstante, com estímulos sensuais em muitas direções. Fiquei docemente adormecida por alguns séculos, e entrei em erupção sem avisar.

 

(Anaïs Nin)

Eternos ventos sussurrantes
Revoltos mares dissonantes
Sempre você

Na solidão, nos pensamentos
Sempre você
Como em outros beijos
No cair da noite
Sempre você

Tantos desejos
Sempre você
Copulado
Sempre você
Sempre você

 

(“Tantos Desejos” – Suba)

 


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Escrito por Arte e Palavra às 23h03
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